As múltiplas narrativas que Froiid tece ao conceber esta exposição – que não é apenas um espaço físico, mas igualmente emocional, mental, imaginário – encontram-se profundamente enraizadas na cultural popular brasileira. Em conjunto, elas constroem um espaço para o convívio e o lazer, para o jogo e para a malandragem. O artista invoca um universo maioritariamente masculino, onde coexistem as apostas e o vício, o vagar e a competição, a sorte e o azar. Entramos em Mundaréu e somos instantaneamente implicadas/os através dos convites abertos ao jogo. Entramos em Mundaréu e somos envolvidas/os por uma amálgama de sons ecléticos. Entramos em Mundaréu e assim fazemos parte de uma homenagem afetuosa aos espaços de partilha da classe trabalhadora. Com um aceno ao escritor, ator, jornalista e dramaturgo Plínio Marcos (1935-1999) e as suas Histórias das quebradas do mundaréu (1973), Froiid conecta futebol e sinuca, política e inteligência artificial, ícones e ditados populares.
À entrada estão expostas em fila 20 bandeiras com varas de bambu de 5 metros de altura, constituindo Sapo de Fora não ronca (2022) que inclui também uma caixa de som colocada na rua, difundindo gravações de jogos de futebol e cantos e tambores de torcidas organizadas. As cores e padrões das bandeiras correspondem a emblemas de clubes de futebol locais. Três jogos de tabuleiro estão espalhados na área de entrada, prontos para serem usados. Estes Petelecos são derivados de campos de futebol e têm títulos como Cabeça de área, Zona do Agrião, ou Ai o bambu quebrou no meio, os quais aludem às formas recortadas dos tabuleiros e às assimetrias que favorecem uma das partes. Duas impressões fotográficas multiplicam as jogadas La mano de Dios (Maradona, Copa do Mundo, 1986) e Drible da Vaca (Pelé, Copa do Mundo, 1970) criando padrões geométricos em preto-e-branco, acompanhados dos vídeos das respetivas jogadas em loop. O histórico gol de Maradona pela Argentina que ele denominou como uma vingança simbólica contra a Inglaterra devido à Guerra das Malvinas (1982), e o histórico não-gol de Pelé pelo Brasil, apelidado o gol que não foi, mas deveria ter sido. Estes dois ídolos ocupam espaços legendários, míticos, que apelam ao imaginário coletivo do povo.
O centro da galeria é ocupado por uma mesa de sinuca vermelha de 13 metros de comprimento com o título É hora da onça beber água (2020), inspirada pelas pinturas de mesas de sinuca do artista e fotógrafo estado-unidense Man Ray (La Fortune, 1938 e 1973), do pintor holandês Van Gogh (Le Café de nuit, 1888) ou do pintor afro-americano Jacob Lawrence (Pool Parlor, 1942). As pernas da mesa escondem altifalantes que ampliam os sons do jogo através dos microfones instalados em toda a superfície. Assim as jogadas são sempre amplificadas, especialmente quando as bolas caem nos buracos. Ao alongar a mesa e usar a cor vermelha, o artista não só acentua um imaginário político particular, mas também abre espaço para a inclusividade e a coesão social. O comprimento exagerado da mesa alonga metaforicamente o tempo lúdico, enquanto monumentaliza o jogo e o convívio alegre. Froiid também cita os quadros do compositor de samba, cantor e pintor brasileiro Heitor dos Prazeres, que retratou a vida nas favelas, com jovens sambando e jogando, muitas vezes com a cabeça e a vista viradas para cima. O título da obra é uma expressão que indica um momento perigoso – quando a onça bebe água ao cair da noite, os outros animais estão em alerta.









