O drible da vaca

Esse lance do Pelé é quase mais forte justamente porque não vira gol. Ele desmonta a lógica de que o futebol se resume à eficiência. O que fica é o gesto e a invenção no tempo do jogo. É como se o drible resolvesse tudo sozinho, e o chute fosse só um detalhe que não apaga a genialidade do percurso.

O chamado “gol que não foi”, protagonizado por Pelé contra o Uruguai na Copa do Mundo de 1970, condensa uma dimensão conceitual do futebol que ultrapassa a lógica do resultado: ao deixar a bola passar e contornar o goleiro Ladislao Mazurkiewicz sem tocá-la, Pelé produz um gesto de invenção que desloca o sentido do jogo do gol para o próprio processo, instaurando um momento em que o quase se torna mais significativo que a conclusão; assim, o lance permanece como um marco estético e simbólico, evidenciando que, em certas situações, a potência criativa e a elaboração do movimento podem ter maior densidade do que sua eficácia final.

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