“Quando tá valendo, tá valendo.” — Ronaldinho Gaúcho (2013)
Ao se interessar pelo jogo como matéria-prima, Froiid constrói um conjunto de obras em que o esmiúça e o reapresenta. Ele ressurge, recortado e rearticulado, como aposta do artista, ora nas suas particularidades e lógicas próprias, ora nos seus cruzamentos com diferentes dimensões da sociedade. Para tanto, Froiid não se limita às questões da participação e da interação; se são fundamentais em alguns trabalhos, elas não se encerram nelas mesmas, mas existem para provocar novos encontros, assim como deslocamentos de ordem e de sentido. Na última década, o artista construiu uma trajetória que aponta para um exercício de composição calculado, operado quase via esquema tático, em que cada elemento importa individualmente, mas também cumpre um papel em outra escala coletiva.
O jogo é o real, mas também o seu avesso. Se supostamente ocorre em paralelo à vida social, ele a atravessa, ao inverter estruturas rígidas, subverter a rotina e questionar a previsibilidade. Oferece em troca o acaso, o fortuito e o imponderável. É o lugar do malandro por excelência e onde o malandro é excelente, pois ali trabalho e sucesso não se equivalem e as competências são de outra ordem. Para ter sucesso é preciso ter sorte e a sorte vem da fé, antes de vir do esforço e da labuta. É nesse espaço também que impera a sabedoria dos ditos populares que sintetiza, em frases e trocadilhos, filosofia e experiência.
PEITO DE AÇO, título da exposição, faz referência ao apelido de Vavá, centroavante da seleção brasileira bicampeã mundial nas Copas de 1958 e 1962, conhecido pela raça e entrega em campo. A evocação desse personagem insere a mostra na memória coletiva do futebol brasileiro e reforça o interesse de Froiid pelas narrativas, símbolos e imaginários que atravessam o esporte. Essa lógica se desdobra na criação de uma instalação inédita concebida a partir da “escalação” de onze obras da coleção do Instituto Usiminas, articuladas às obras do artista em uma configuração estratégica própria. Como em um esquema tático, cada trabalho preserva sua singularidade, mas passa a atuar em relação aos demais, produzindo aproximações, tensões e novas possibilidades de leitura.
Da geometria que conecta o campo de futebol de várzea, o jogo de tabuleiro e o jogo do bicho à experiência da arte concreta, ao manejo da aleatoriedade das programações mediadas por lógicas computacionais, Froiid estabelece uma prática artística que vai além da transdisciplinaridade, porque opera para além de uma lógica de disciplina. Os elementos que constituem cada uma das obras são familiares e é justamente essa familiaridade que estará na base do trânsito pela exposição. O reconhecimento de figuras e objetos, assim como de sons e das diferentes práticas evocadas pelo artista, convoca o visitante a uma participação ativa, em que sua experiência, seu conhecimento e, por vezes, sua destreza importam.





