O projeto parte de um processo experimental duplo: a música Carnaval na Bienal, composta pelo sambista e pintor Heitor dos Prazeres para a 1ª Bienal de São Paulo, em 1951, e as pinturas que o artista fazia sobre partituras musicais. Desse encontro entre som e imagem nasce uma instalação que integra música, pintura e imagens geradas por inteligência artificial.
O coração do projeto é um sistema dinâmico que utiliza gravações de diferentes músicos para gerar, a partir de “Carnaval na Bienal”, uma composição imprevisível. Essas variações emergem da interação entre as gravações originais e processos de inteligência artificial, criando uma experiência sonora única, que nunca se repete.
Simultaneamente, realizo cem pinturas baseadas nas ilustrações do artista, nas quais partituras musicais serviam de base para o desenho. Essas peças se integram visualmente ao espaço expositivo. A instalação ocupa uma sala que também abriga uma pintura original de Heitor dos Prazeres, Frevo. O espaço se transforma, assim, em um campo sensorial, no qual a relação entre pintura e música é atualizada de maneira crítico-poética.
Parto dos próprios processos criativos de Heitor, que utilizava moldes e produzia suas pinturas em escala com o auxílio de vários ajudantes — uma espécie de Factory avant la lettre, décadas antes de Andy Warhol. A utilização de mecanismos de IA em 2025 acontece num momento pujante desse debate, em que essas ferramentas estão no centro da crítica e expostas de maneira divisória no campo da arte. Há ainda uma segunda camada nessa escolha: usar o mecanismo justamente no período em que o sistema ainda apresenta falhas de renderização, produzindo imagens fantasmagóricas, sombrias, repetidas e difusas — um erro que provavelmente deixará de existir nas próximas gerações do modelo, a não ser que se peça deliberadamente ao sistema para reproduzi-lo. Por isso, cada peça é única e irrepetível por essência: um registro de um estado passageiro e específico da tecnologia.
Outra camada do trabalho é o uso da pintura relacionada à forma do próprio ateliê de Heitor dos Prazeres, localizado na antiga Rua General Pedra, no Rio de Janeiro — uma arquitetura de influência árabe, com um grande portal que aparece em diversas fotografias da vida do artista naquele espaço. Todos esses elementos se mesclam numa construção sonora incessante: o som é dividido em estéreo entre duas salas, cada uma reproduzindo uma camada distinta, que se completa no centro do espaço — de modo que o visitante, ao caminhar pela sala, escuta a instalação em movimento.












