O pombo que escapa ao morcego

O pombo que escapa ao morcego toma o Mineirão como estrutura de trabalho. Apresentado na Galeria do Minas Tênis Clube, na exposição Avesso, o trabalho opera a partir da vibração gerada pelos cânticos das torcidas organizadas, que fazem o estádio tremer. O som ativa a arquitetura como um corpo em movimento, deslocando o Mineirão da condição de monumento estável para a de campo de forças, onde memória coletiva, jogo e experiência popular reorganizam continuamente o espaço.

“Froiid se interessa pelo jogo como matéria-prima. Esse ponto de partida está na base de um conjunto de obras em que o esmiuça, recorta e o rearticula. A aposta do artista está em decifrar lógicas próprias, em evidenciar as interseções do jogo com diferentes dimensões da sociedade. Em Pombo que escapa ao morcego (2025) nos posicionamos nas bordas de uma réplica do Mineirão, estádio de futebol construído na década de 1960, na região da Pampulha em Belo Horizonte. Uma das características mais marcantes do método construtivo do estádio, edificado em partes modulares de concreto armado é a maneira como ele vibra em reação à presença da torcida: quanto mais cheio e agitado, mais movimento. A onda de gentrificação dos estadios brasileiros, uma das polêmicas nucleares da conturbada década de 2010, modificou sobremaneira essa experiência. No caso do Mineirão, a reforma do estádio resultou no fim da “geral”, parte da arquibancada mais próxima ao campo, de onde o público assistia o jogo em pé e quase no mesmo nível no gramado. Ingresso mais barato, a “geral” era ocupada pelos “populares”, expressão difundida na época para designar as camadas mais pobres da população Esse grupo, em sua maioria constituída por pessoas negras e pardas tomava para si o estádio movimentá-lo segundo seu próprio ritmo. Em Pombo que (…), o movimento do “Mineirão” é resultado do acionamento de motores elétricos que, mediados por um software, respondem ao estímulo de mais de 50 horas cantos de torcidas organizadas. Se o estádio ouve os cantos e vibra em resposta, o público ouve o som de um conjunto de sinos cravados ao longo da extensão da peça. O sino remete à presença da Igreja Católica como elemento que pautava a vida social desde os primeiros anos da ocupação colonial no nosso ter-ritório, num contexto em que a fé, em seus variados sincretismos, era ao mesmo tempo ferramenta de dominação e resistência.” – Lucas Menezes

  • Curadoria

    Lucas Menezes

  • Automação

    Italo Travenzoli

  • Projeto técnico

    Amanda Diniz

  • Fotos

    Ícaro Moreno

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